Estalagem das Pulgas
A “Estalagem das Pulgas” despertou para a ribalta, graças a dois bons amigos e colaboradores deste periódico, infelizmente já desaparecidos do número dos vivos – Barbosa Marques e António Monteiro dos Santos.
Assim, qualquer um deles apontava para a existência de uma Estalagem, algures na Junqueira, se bem que apontando o Lugar de Casal de Pedro como o local mais previsível. O restante trabalho coube aos voluntários deste jornal, numa procura que bem mais parecia a “caça aos gambozinos”.
É que, se a referida Estalagem, propriedade dos frades do Mosteiro, estava vocacionada para apoiar os peregrinos que demandavam terras da Galiza, ao encontro de Santiago de Compostela, logo, só poderia estar em local de passagem da Estrada de Santiago.
Mas, a cimentar a importância da descoberta, surge uma referência de primordial relevo – é que, na segunda metade do séc. XIX, aquele lugar e respectiva Estalagem, ainda sem o baptismo de “Pulgas”, era referenciado por Camilo Castelo Branco, no livro “A filha do arcediago (1)”, com o texto que passamos a transcrever, tal qual a escrita da época .
…” N’esse dia foram dormir a Casal de Pedro, e viram lá umas pulgas, cujas netas eu encontrei trinta annos depois, pulgas enormes e ferozes, que arrastam as meias dos passageiros, depois que lhes exhaurem as artérias de um sangue azedo pelo maldito vinho, que a estalajadeira vos ministra, perguntando-vos se sabeis alguma mezinha para matar as bichas dos pequenos.
Pernoitei ahi uma vez na minha vida. Comprehendi, no quarto que me deram, os supplicios do christão primitivo atirado ao circo. “Christão ás pulgas!” deveria ser, no império romano, um grito de prazer para o paganismo sanguinário, como o fatal “Christão ás feras!”
Era alta noite, e eu não podia, dormindo, transigir, amigavelmente com a ferocidade dos insectos, se é que não podemos chamar cetacios áquellas pulgas, de horrível recordação.
No sobrado immediato ao da pocilga em que eu me contorcia nas vascãs de uma agonia de novo género, rosnavam uma boa dúzia de gallegas, que vinham da terra a visitarem os respectivos gallegos residentes no Porto…”
(1) A filha do arcediago, Camilo Castelo Branco, Parceria António Maria Pereira,Livraria Editora, Quinta edição, Lisboa, 1905

