Correio da Junqueira

Memórias Paroquiais de 1758 – S.Simão da Junqueira

 

Aquando do terramoto de 1755, Portugal sofreu danos consideráveis, principalmente nas regiões de maior risco sísmico – Lisboa e todo o sul do continente, com milhares de vítimas e prejuízos incalculáveis.

Para fazer o levantamento de tudo isto e saber o estado do país, o Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, Primeiro Ministro do Rei D.José, mandou realizar, através dos Párocos das freguesias, um inquérito, do qual destacámos tudo quanto foi dito sobre a Junqueira. (para melhor compreensão, apresentamos o texto em português actual)

1-A freguesia de S.Simão da Junqueira está situada na Província do Minho, no Julgado e Comarca de Faria e Arcebispado de Braga.

2-É do termo de Barcelos da Sereníssima Casa de Bragança, ainda que actualmente tenham os religiosos do Mosteiro que são da Congregação Reformada de Santo Agostinho, para que esta freguesia seja Couto e o Mosteiro Senhor Donatário por eles fundados, numa doação do Senhor Rei D.Afonso Henriques, a qual se acha no Cartório do mesmo Mosteiro.

3-Compreende esta freguesia os seguintes lugares: Barro (assim se chamava à época), Józ, Folão, Moinhos, Vilar de Matos, Lamelas, Real, Ral, Barreiro, Carvalhal, Garrida, Casavedra, Funtão, Chantada, Venda, Casal Coutinho, Casal de Pedro, S.Mamede, tendo 178 habitantes.

4-Está situada num vale, estando ao pé do monte da Cividade, que é um dos ramos que dos Pirinéus aqui vem finalizar.

5-A igreja está fora dos referidos lugares, quase no meio da freguesia.

6-Tem por orago os Santos Apóstolos Simão e Judas, a igreja está feita de novo, e é uma das melhores desta província - tem oito altares, a saber : o maior onde estão os Santos Padroeiros, o de Nossa Senhora da Encarnação, o de S.Teotónio e do Santíssimo Sacramento, o da Senhora do Rosário, de S.José e do Santo Cristo e o de Santo António.

7-O Pároco é Vigário e Cónego Regular do Mosteiro, tendo um Cura que administra os Sacramentos. O dito Vigário tem de renda trinta mil reis e o Cura cinquenta.

8-Tem vinte Cónegos, com cinco mil cruzados de renda, em que entram as rendas de S.Cristóvão de Rio Mau, S.Martinho e Parada. Antigamente teve hospital.

9-Tem três capelas – Nossa Senhora da Graça, S.Mamede e S.António, na Quinta da Espinheira, esta última pertencente a Manuel Coelho Duarte, de Vila do Conde.

10-A Igreja tem várias procissões, nas sextas- feiras da Quaresma e a da Senhora da Graça, no dia dois de Julho.

11-Os frutos que se colhem com maior abundância são o milho, centeio, algum trigo, feijão e vinho verde.

12-Não tem feira nem correio.

13-Fica esta freguesia seis léguas distante da Augusta Cidade de Braga, Capital deste Arcebispado e a cinquenta e seis da Capital do Reino.

14-Pela parte sul da freguesia corre o Rio Ave, e pela parte norte o Rio Este. Tem muitas fontes de água boa, mas quase todas estão mal tratadas, que bem se lhe pode chamar charcos, e uma delas tem a especialidade de secar no Inverno e ter água em abundância no Verão.

15-Estes dois rios não são navegáveis, pelos seus açudes e pela falta de água no Verão, permitindo a sua passagem a pé.

16-…Não houve nesta freguesia qualquer ruína com o terramoto de 1 de Novembro de 1755.

17-Não há nesta terra nenhuma serra, e sobre o nascimento dos rios, poderão dar notícia os Reverendos Párocos, em cujas freguesias eles nascem.

18-Nestes dois rios entram vários regatos e ribeiros.

19-Criam estes dois rios grandes barbos, bogas, escalos, subindo por eles lampreias e sáveis…

20-Todas as margens destes rios são cultivadas; as águas do Rio Ave são excelentes e muito medicinais, razão para pessoas doentes ali se banharem, como no Rio Mondego.

21-Estes rios não mudam de nome no seu percurso. Nesta freguesia não há nenhuma ponte. Há azenhas, moinhos e açudes.
      
No Rio Ave, dizem os antigos, vinha ouro misturado.
Este documento foi assinado pelo Cura, João Antunes de Araújo, tendo como testemunhas o Vigário de S.Cristóvão de Rio Mau, Gabriel Ribeiro e o Vigário de S.Miguel de Arcos, António Pereira dos Reis.

( Maria Eduarda Pinto e A. Monteiro dos Santos, in Boletim Cultural de Vila do Conde)

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